- Quase 200 mil refugiados terão de achar um novo país de refúgio em 2011
- Somália transforma crianças em militares
- Um mundo em movimento
| Posted: 05 Jul 2010 08:08 AM PDT Fonte: AFP ![]() Criança palestina observa do lado de fora de tenda de campo de refugiados em al-Hol, na região síria de Hasaka. “A maioria dos refugiados conseguem voltar para seus países ou se instalam naqueles em que foram recebidos. Mas para alguns deles – 172.300, segundo as previsões para 2011 – não há possibilidade de retorno para seu país nem de integração no país que os acolheu por razões de segurança, de religião ou de integração social”, explicou à AFP um porta-voz do ACNUR, André Mahecic. Segundo o estudo do ACNUR, os iraquianos e os birmaneses são os refugiados mais numerosos que tentaram se integrar num terceiro país. “Estas pessoas muito vulneráveis necessitam encontrar um lugar para viver. A reinstalação em um terceiro país é a única solução”, acrescentou, citando o exemplo de alguns refugiados que, depois de terem fugido para a Síria e a Jordânia, tiveram de se instalar em outro país pois se sentem ameaçados devido a sua etnia. Segundo as previsões do ACNUR, 40.000 refugiados (dos 172.300) não deverão encontrar um lugar de acolhida em 2011. As atividades de reinstalação dos refugiados continuam enfrentando o fato de que existem poucos países (24, segundo o ACNUR) que recebem refugiados e que estes países fixaram cotas anuais de admissão. A organização da ONU pede aos países que se abram mais para os refugiados e considerem elevar suas cotas de admissão. Para tratar desse tema, de 6 a 8 de julho, em Genebra, o ACNUR organizará consultas tripartites, reunindo representantes dos governos e das organizações não-governamentais. Em 2009, o ACNUR contabilizou 15,2 milhões de refugiados no mundo. Filed under: Notícias ![]() |
| Posted: 05 Jul 2010 08:02 AM PDT Fonte: Folha de S.Paulo Jovens combatentes são financiados com dinheiro dos EUA Por Jeffrey Gettleman Awil Salah Osman ronda as ruas da devastada capital da Somália e se parece com muitos outros meninos nas suas roupas esfarrapadas, nos seus membros esquálidos e nos seus olhos ávidos por atenção e por afeto.Mas Awil, 12, tem duas diferenças notáveis: ele porta um fuzil automático Kalashnikov totalmente carregado e trabalha para uma força militar que é substancialmente armada e financiada pelos Estados Unidos. “Você!”, grita ele para um motorista que tenta passar sorrateiramente por seu posto de controle. Seu rosto de querubim é tomado por um ódio violento, e ele brande a arma ameaçadoramente. “Você sabe o que estou fazendo aqui! Pare o seu carro!”, ordena. O motorista obedece imediatamente. É sabido que insurgentes islâmicos somalis estão arrancando crianças dos campos de futebol para transformá-las em soldados. Mas Awil não é um rebelde. Ele trabalha para o Governo Federal Transitório da Somália, uma peça-chave da estratégia americana de contraterrorismo no Chifre da África. Segundo grupos somalis de direitos humanos e funcionários da ONU, o governo local, que depende da assistência ocidental para sobreviver, está mobilizando centenas de crianças ou mais para as linhas de combate, algumas com apenas nove anos. As Nações Unidas dizem que o governo da Somália é um dos “mais persistentes violadores” do mundo no envio de crianças à guerra, colocando-se ao lado de grupos rebeldes notórios na África, como o Exército de Resistência do Senhor. Funcionários do governo somali admitem não ter feito as checagens necessárias e revelaram também que o governo dos EUA estava ajudando a pagar os soldados, um acordo que autoridades americanas confirmaram, abrindo a possibilidade de que contribuintes americanos estejam pagando alguns desses combatentes infantis. A ONU afirma ter oferecido ao governo somali planos específicos para desmobilizar as crianças. Mas os líderes da Somália, há anos lutando para resistir aos avanços dos insurgentes, estão paralisados por acirradas disputas internas e até agora não deram resposta. Várias autoridades americanas também se disseram preocupadas com o uso de crianças como soldados e afirmaram estar pressionando seus homólogos somalis a tomar mais cuidado. Mas, questionado sobre como o governo dos EUA poderia assegurar que não há dinheiro americano sendo usado para armar crianças, um funcionário disse: “Não tenho uma boa resposta para isso”. Segundo o Unicef, braço da ONU para a infância, só dois países não ratificaram a Convenção sobre os Direitos da Criança, que proíbe o uso de soldados menores de 15 anos: os Estados Unidos e a Somália. Mas os EUA ratificaram um acordo posterior destinado a impedir o recrutamento e uso de crianças como soldados. Muitos grupos de direitos humanos consideram a situação inaceitável, e o próprio presidente dos EUA, Barack Obama, quando o assunto foi abordado durante sua campanha, não discordou. “É constrangedor nos vermos na companhia da Somália, uma terra sem lei”, disse. Awil sofre para carregar a arma, que pesa cerca de 5 kg. Às vezes recebe uma ajuda do colega Ahmed Hassan, 15. Ahmed diz que foi mandado a Uganda há mais de dois anos para treinamento militar, o que não foi possível verificar independentemente. “Uma das coisas que aprendi”, contou ele, entusiasmado, “é como matar com uma faca”. As crianças não têm muitas opções na Somália. Depois do colapso do governo, em 1991, toda uma geração foi deixada solta nas ruas. A maioria das crianças jamais se sentou em uma sala de aula ou brincou num parque. Seus ossos foram atrofiados por fomes ligadas ao conflito, suas psiques foram abaladas por todas as mortes que testemunharam. “Do que eu gosto?”, perguntou Awil. “Gosto da arma.” Ele contou que foi abandonado pelos pais, que fugiram para o Iêmen, e entrou para uma milícia por volta dos sete anos. Vive agora com outros soldados do governo em uma casa em ruínas, repleta de caixas de cigarros e roupas malcheirosas. Recebe cerca de US$ 1,50 por dia, mas só de vez em quando, como a maioria dos soldados. Sua cama é um colchão coberto de moscas, que ele divide com outras duas crianças militares. “Ele deveria estar na escola”, disse o comandante de Awil, Abdisalam Abdillahi. “Mas não há escola.” Ali Sheikh Yassin, vice-presidente do Centro Elman da Paz e dos Direitos Humanos, em Mogadício, disse que as crianças compõem cerca de 20% das tropas do governo (que supostamente totalizam de 5.000 a 10 mil soldados) e 80% das forças rebeldes. “Esses meninos podem sofrer muito facilmente uma lavagem cerebral”, disse Ali. “Nem é preciso pagá-los.” Filed under: Notícias ![]() |
| Posted: 05 Jul 2010 07:51 AM PDT Fonte: Folha de S.Paulo Nunca o ato de cruzar fronteiras teve a escala e as implicações de hoje Por Jason DeParle ![]() Africanos (acima) resgatados no mar perto da costa de Tarifa, Espanha, estão entre os 214 milhões de migrantes do mundo; abaixo, trabalhadores estrangeiros em uma obra em Dubai (Photo: Andy Rangel/Associated Press; Abaixo à esq., Tyler Hicks/ The New York Times) Menosprezada? Um cético poderia questionar isso, sendo o assunto tão frequente no noticiário. Afinal, a campanha do Estado americano do Arizona contra os imigrantes ilegais motivou debates de Melbourne a Madri. Mas há também uma história por trás da história, uma maré complicadora. Mesmo quem ganha a vida estudando a migração sofre para captar totalmente seus efeitos. “Politicamente, socialmente, economicamente, culturalmente -a migração borbulha por todo lado”, disse James Hollifield, cientista político da Universidade Metodista do Sul, em Dallas (EUA). “Com frequência não reconhecemos isso.” O que levou o Google a fechar sua filial na China, em vez de aceitar a censura do governo? Muitos fatores, sem dúvida. Entre os citados por Sergey Brin, cofundador do Google, estava a repressão que sua família sofreu durante sua infância na União Soviética, antes de migrar aos EUA. A imigração acelerou a cisão no movimento trabalhista americano. Em 2005, seis sindicatos deixaram a venerável Federação Americana do Trabalho para formar uma central sindical rival, a Change to Win (“mudança para vencer”). Os dissidentes tinham mais imigrantes de baixa renda entre seus filiados. A cisão, por sua vez, teve repercussões além do movimento trabalhista. Janice Fine, cientista política da Universidade Rutgers, de Nova Jersey, lembrou que o Change to Win teve um papel importante (alguns diriam decisivo) nos estágios iniciais da campanha presidencial de Barack Obama, em 2008. “Se eles estivessem dentro da burocracia maior, teria sido mais difícil para eles anunciar logo um apoio e levar dinheiro para o lado dele [Obama]“, disse Fine. Os teóricos às vezes consideram o movimento de pessoas como a terceira onda da globalização, depois do movimento de bens (comércio) e de dinheiro (finanças), que começou no século anterior. Embora o comércio e as finanças globais causem perturbações, são perturbações menos visíveis. Uma camisa feita no México pode custar o emprego de um trabalhador americano. Um trabalhador do México pode se mudar para a casa ao lado, mandar seus filhos para a escola pública e ter a necessidade de que lhe falem em espanhol. Uma razão para a migração parecer tão potente é ter emergido inesperadamente. Ainda na década de 1970, ela parecia tão desimportante que o Departamento do Censo dos Estados Unidos decidiu parar de perguntar onde os pais das pessoas haviam nascido. Agora, um quarto dos residentes nos EUA menores de 18 anos é imigrante ou filho de imigrante. A ONU estima que haja 214 milhões de migrantes no planeta, um aumento de 37% em duas décadas. Eles cresceram 41% na Europa e 80% na América do Norte. “Há mais mobilidade neste momento do que em qualquer momento da história mundial”, disse Gary Freeman, cientista político da Universidade do Texas. Os mais famosos países de origem da migração na Europa -Irlanda, Itália, Grécia, Espanha- de repente se tornaram destino de migrantes. Por mais polêmico que o assunto seja nos EUA, a capacidade dos americanos de absorver os imigrantes continua sendo motivo de inveja para muitos europeus. Apesar disso, os desafios de hoje diferem daqueles do (mitificado) passado. Pelo menos quatro características separam esta época das outras e amplificam os efeitos da migração. Primeiro, o alcance global da migração. Os movimentos do século 19 eram principalmente transatlânticos. Agora, nepaleses trabalham em fábricas coreanas, e mongóis fazem trabalhos braçais em Praga. As economias do golfo Pérsico iriam desabar sem seus exércitos de trabalhadores estrangeiros. Um segundo fator que aumenta o impacto da migração é que quase metade dos migrantes do mundo atualmente são mulheres, e muitas deixaram seus filhos para trás. Sua emergência como arrimos de família está alterando as dinâmicas familiares em todo o mundo em desenvolvimento. E o tráfico sexual é hoje uma preocupação global. A tecnologia introduz um terceiro rompimento com o passado: antigamente, multidões chegavam à ilha Ellis (Nova York) sem celulares nem webcams. Agora, uma babá em Manhattan pode falar com seu filho em Zacatecas, votar nas eleições mexicanas e assistir a programas mexicanos de TV. Esse “transnacionalismo” é um conforto, mas também uma preocupação para quem acha que ele impede a integração. Na era da jihad global, ele pode ser também uma ameaça à segurança. O imigrante paquistanês que confessou no mês passado a tentativa de atentado na Times Square disse ter visto pela internet palestras jihadistas do Iêmen. Há pelo menos mais um traço que amplifica o impacto da migração moderna: a expectativa de que os governos irão controlá-la. Nos Estados Unidos, durante a maior parte do século 19, não havia qualquer barreira jurídica para o acesso ao país. O assunto era polêmico, mas pouca gente culpava o governo. Agora, espera-se dos governos ocidentais que mantenham os fluxos comerciais e turísticos e respeitem os direitos étnicos, mas selem as fronteiras. Falhar nessa tarefa “basicamente diz às pessoas que o governo não consegue fazer o seu trabalho”, afirmou Demetri Papademetriou, cofundador do Instituto de Política Migratória, de Washington. “Isso cria a retórica antigoverno que vemos, e a raiva que as pessoas estão sentindo.” |




