Posted: 21 Feb 2011 03:23 PM PST
Fonte: Folha de S.Paulo
Piloto
da força aérea líbia caminha perto de jato Mirage que pousou no
aeroporto internacional de Malta (Foto: Darrin Zammit Lupi/ Reuters)
Dois pilotos da Força Aérea da Líbia desertaram na segunda-feira e
levaram seus caças para Malta, onde disseram às autoridades que haviam
recebido ordens para bombardear manifestantes, segundo fontes do governo
maltês.
As fontes disseram que os aviadores –ambos com a patente de coronel–
decolaram de uma base perto de Trípoli. Eles estão sendo interrogados
pela polícia local, e um dos dois pediu asilo político.
Os dois disseram que decidiram voar para
Malta após receberem ordens para atacar manifestantes em Benghazi,
segunda maior cidade da Líbia, epicentro dos protestos contra o regime
de Muammar Gaddafi.
A polícia maltesa também está interrogando sete passageiros que
chegaram da Líbia a bordo de dois helicópteros com matrícula francesa.
Fontes do governo disseram que os helicópteros deixaram a Líbia sem
autorização das autoridades locais, e que só um dos sete passageiros —
que afirmam ser cidadãos franceses– tinha passaporte.
A chancelaria francesa disse que estava analisando o caso.
Violência
O episódio ocorreu em meio a intensos protestos na Líbia contra Gaddafi e
seus 42 anos de governo autoritário. Intensa repressão já deixou ao
menos 233 mortos, segundo informou nesta segunda-feira a ONG sediada em
Nova York Human Rights Watch. Já a Federação Internacional de Direitos
Humanos (FIDH) calcula entre 300 e 400 pessoas foram mortas desde o
início da rebelião.
Manifestantes se reúnem supostamente em Benghazi nessa imagem sem data colocada na rede social Facebook (Foto: Reuters)
A FIDH relatou ainda que manifestantes antirregime assumiram o controle de cidades líbias e que militares estão desertando.
“Muitas cidades foram tomadas, principalmente no leste. Os militares
estão debandando”, declarou a presidente da FIDH, Souhayr Belhassen,
citando principalmente Benghazi, reduto da oposição, e Syrta, cidade
natal do coronel de Gaddafi.
A emissora de TV NTV, citando um trabalhador turco, informou que a
cidade de Jalu, localizada cerca de 400 quilômetros ao sul de Benghazi,
também foi controlada pelos opositores do regime.
“O controle está totalmente nas mãos da população. Não há forças de
segurança, não há polícia. Estamos sujeitos à vontade e ao controle do
povo”, relatou Mustafa Karaoglu, que trabalha na cidade –de cerca de
3.500 habitantes–, onde um grupo de trabalhadores estrangeiros se mantém
reclusos em seus locais de trabalho.
Benghazi, onde os protestos começaram na semana passada após a prisão
de um advogado de direitos humanos e onde dezenas de pessoas foram
mortas por forças de segurança, está efetivamente sob controle dos
manifestantes, de acordo com alguns moradores da localidade.
Bombardeios
O governo de Gaddafi voltou a reprimir duramente os manifestantes que
pedem sua renúncia e atacou, com aviões militares que dispararam munição
real, multidões que se reuniram na capital da Líbia, Trípoli, para
protestar, informou nesta segunda-feira a emissora de TV árabe Al
Jazeera. Segundo especialistas, a ação poderia significar que o regime
do ditador está perto do fim.
A informação foi passada por um cidadão líbio, Soula al Balaazi –que
se diz um ativista da oposição–, que afirmou à TV por telefone que
aviões de guerra da força aérea do país bombardeou “alguns locais de
Trípoli”.
No entanto, não foi possível confirmar a informação de forma independente.
Um analista da consultoria Control Risks, com sede em Londres, disse
que o uso de aviões militares contra seu próprio povo indica que o fim
pode estar próximo para Gaddafi.
“Isso realmente parecem ser atos derradeiros, desesperados. Se você
está bombeando sua própria capital, é realmente difícil ver como você
pode sobreviver”, afirmou Julien Barnes-Dacey, analista da consultoria
para o Oriente Médio.
“Na Líbia, mais do que em qualquer outro país da região, há um prospecto de violência grave e conflito aberto.”

