Posted: 19 Mar 2011 05:29 AM PDT
Fonte: ACNUR
Estas pessoas estão saindo de Benghazi rumo a Egito, para fugir dos combates na Líbia. (Foto: F. Noy/ ACNUR)
O Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR)
informou hoje que mais de 300 mil pessoas já deixaram a Líbia por causa
da violência interna no país e anunciou que está preparando um plano de
contingência para responder a um possível fluxo massivo em direção ao
Egito.
“Os eventos nos próximos dias serão cruciais em relação a um possível
fluxo massivo de deslocados no leste da Líbia”, disse em Genebra a
porta-voz do ACNUR, Melissa Fleming. Ela acrescentou ser possível que
outras de saída do país estejam sendo bloqueadas – o que tornaria a
fronteira da Líbia com o Egito um destino natural das pessoas que querem
deixar o território líbio.
Fleming disse que as equipes do ACNUR
verificaram, nos últimos dias, um número crescente de líbios fugindo
para o Egito. Foram cerca de 1.490 na última quarta-feira, de um total
de 3.163 pessoas. “A maioria dos entrevistados na fronteira com o
Egito disse que deixaram a Líbia pelo medo de serem atingidos no
conflito. Muitos mencionaram as recentes ameaças feitas pelo governo de
bombardear Benghazi”, acrescentou Fleming, mencionando uma cidade
ainda dominada pelas forças anti-governamentais.
Segundo equipes do ACNUR na fronteira egípcia, uma família líbia de
Ajdabiyya disse que estão sendo feitas transmissões de rádio pedindo à
população para sair do país. Eles também disseram que aviões jogam
panfletos encorajando a saída dos civis.
Uma equipe da agência de notícia Reuters que deixou Ajdabiyya na
quarta-feira passada disse ao ACNUR que tiveram que fugir durante os
conflitos que devolveram a cidade para o controle de tropas pró-governo.
“Eles vinham de todas as partes, perseguindo todos, sem distinção. As
pessoas fugiram para salvar suas vidas”, disse um dos jornalistas.
Um jornalista palestino desta mesma equipe da Reuters foi impedido de
entrar no Egito. Ele está com um senhor palestino de 64 anos e sua
filha, que aguardam na fronteira deste a última terça-feira. Outras
famílias palestinas que chegaram à fronteira tiveram que retornar e
estão aguardando em território Líbia.
Equipes to ACNUR encontraram dois homens que chegaram feridos por
tiros. Um deles, que alegou ser um revolucionário baleado no conflito em
Raz Lanuf na semana passada, contou que não havia mais quartos no
hospital de Benghazi, o que o forçou a voltar ao Egito em busca de
tratamento.
Alguns dos entrevistados não foram claros sobre suas razões para
deixar a Líbia, dizendo simplesmente que estavam no Egito para procurar
assistência médica. “Entretanto, os carros cheios de malas sugerem
outra coisa. Outros entrevistados são sinceros em suas avaliações. Um
homem nos disse ‘nós queríamos democracia, mas acabamos em guerra’’,
afirmou Melissa Fleming.
Enquanto isso, na fronteira da Tunísia com a Líbia, sons de tiroteios
no território Líbio podem ser escutados. Nos últimos dias, o fluxo de
chegadas na fronteira tem sido de mil pessoas por dia, a grande maioria
de africanos subsaarianos.
O ACNUR ouviu relatos consistentes das novas chegadas de todas as
nacionalidades sobre os numerosos postos ao longo da estrada de Trípoli a
Rad Adjir, na fronteira com a Tunísia. Eles descreveram abusos por
soldados pró-governo na rota, incluindo um confisco contínuo de
celulares, cartões de memória e câmeras.
“Refugiados e solicitantes de refúgio em contato com o ACNUR via
telefone relatam que fugir para a fronteira tem se tornou mais perigoso,
principalmente para os homens solteiros, que correm o risco de
recrutamento forçado pelo Exército líbio”, ressaltou a porta-voz do
ACNUR.
Centenas de refugiados permanecem escondidos na Líbia, sendo que
muitos relataram ao ACNUR que estão sem comida e vivendo sob medo
constante. O ACNUR Trípoli e seus parceiros locais continuam a oferecer
assistência aos refugiados e aos solicitantes de refúgio com quem
mantêm contato.
Das cerca de 300 mil pessoas que já deixaram a Líbia, quase 160 mil
cruzaram a fronteira com a Tunísia e outros 130 mil saíram pela
fronteira com o Egito. Outras cruzaram as fronteiras com Níger e
Argélia.
ACNUR e OIM – O ACNUR e a Organização Internacional para Migrações
(OIM) informaram hoje que seu programa conjunto de retiraras de
trabalhadores migrantes que fugiram da Líbia para o Egito e a Tunísia já
beneficiou mais de 50 mil pessoas.
As duas organizações reforçaram o pedido de novos financiamentos para
esta operação de retirada, pois há mais de 10 mil pessoas – nas
fronteiras da Tunísia, Egito, Níger e Argélia – que ainda aguardam para
serem repatriadas. A OIM estima que mais de um milhão de trabalhadores
migrantes ainda encontra-se na Líbia, a grande maioria da África
sub-saariana.
“Estamos muito agradecidos à Tunísia, Egito, Argélia e Nigéria por
oferecer refúgio a milhares de civis que fogem da Líbia diariamente e
necessitam de assistência”, disse em Genebra o Alto Comissário da ONU
para Refugiados, António Guterres. “Com a ajuda impressionante destes
governos, conseguimos administrar o movimento massivo e repentino de
pessoas. Mas esta crise humanitária está longe de acabar”, completou
Guterres.
